Na madrugada de 24 de fevereiro, o mundo acordou com as explosões de mísseis disparados pela Rússia na direção de cidades ucranianas. Tornaram-se reais as suspeitas de que o presidente Vladimir Putin invadiria o país vizinho para concretizar seu maior fetiche: restabelecer o antigo Império Russo.

As cidades Luhansk, Donetsk, Carcóvia, Mariupol, Odessa e Kiev foram as primeiras a sentir os efeitos da invasão. Esperava-se que o presidente Volodymyr Zelensky capitulasse rapidamente, mas o chefe do Executivo decidiu permanecer. Com o apoio da população, os ucranianos optaram por resistir.

“Preciso de munição, não de carona”, respondeu Zelensky, em um post no Twitter, à oferta dos Estados Unidos de enviar um avião para que ele e sua família fugissem. “A luta é aqui. Os ucranianos estão orgulhosos.”

Sucessivas tentativas para se chegar a um acordo de paz não deram certo. As “sanções” ocidentais não surtiram os efeitos desejados na economia russa. E os invasores têm encontrado uma série de dificuldades no caminho para manter o controle administrativo de territórios que conseguiram ocupar. Seis meses depois do início do conflito, não há indícios de quando ele vai acabar.

Quadro atual, desde o início da invasão da Ucrânia

Depois de a Rússia conquistar alguns territórios, prevalece um período de estagnação. Investidas frustradas para dominar grandes cidades, como a capital Kiev e Kharkiv, levaram as tropas russas a concentrarem o foco da batalha no leste ucraniano. O mapa de domínio russo está praticamente igual desde abril.

Até o momento, pouco mais de 6 milhões de pessoas fugiram do país, segundo o mais recente levantamento da Organização das Nações Unidas (ONU), publicado em junho. Conforme a ONU, quase 4 mil civis morreram em virtude do conflito. A organização, contudo, pondera que o número pode ser maior.

(Clique e arraste o mapa para ver os territórios conquistados pelos russos)

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Frentes de batalha concentram-se em três pontos

Donetsk e Luhansk

Conforme análise do Instituto de Estudos de Guerra (IEG), essas duas regiões são a frente de batalha mais ativa. Isso porque ambas foram o estopim para a invasão da Ucrânia. Antes de atacar os vizinhos, Putin argumentou que havia “separatistas” ali lutando contra “dominação nazista” que impedia a independência do território. Os moradores supostamente gostariam de ser parte da Rússia. O IEG observou que, apesar de as regiões serem os principais fronts, soldados russos estariam recusando-se a lutar.

Kharkiv

Segunda maior cidade da Ucrânia, Kharkiv quase foi dominada no primeiro mês do confronto, depois de os russos não conseguirem tomar Kiev. Hoje, as tropas invasoras mudaram-se para o leste da Ucrânia e fazem ataques pontuais à cidade, não mais com a mesma força de antes. No início da batalha, uma torre de TV e um prédio de administração pública chegaram a ser bombardeadas.

Zaporizhzhia

Esta região é uma das mais importantes. No local, fica a maior usina nuclear da Europa. A unidade havia sido totalmente desligada por causa dos bombardeios, mas voltou a funcionar ontem. Os ucranianos advertiram a Rússia para uma catástrofe pior que a de Chernobyl, na década de 1980. O domínio da região é vantajoso em razão do controle da produção e distribuição de energia.

Em entrevista à agência de notícias RFI, o diretor da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Rafael Grossi, disse que “é preciso estabilizar a situação” para afastar os riscos de uma catástrofe nuclear no local.

Sanções ocidentais

Em vez um confronto militar aberto com a Rússia, os países ocidentes optaram pela asfixia financeira da Rússia. Dessa forma, a União Europeia (UE) estabeleceu sete pacotes de sanções econômicas, que machucaram o adversário, mas não da forma como se esperava. Previa-se queda de 7% no Produto Interno Bruto (PIB) russo no segundo trimestre deste ano, contudo, o número ficou em 4%.

A Rússia tem um PIB de quase US$ 2 trilhões (pouco mais de R$ 8 bilhões). Talvez por isso fosse previsível que sua economia não entraria em colapso rapidamente. Além disso, Putin está aproveitando os recursos mais importantes do país: suas reservas de petróleo e gás natural. E a dependência de muitos países europeus desses dois produtos não é uma mera opinião, é um fato.

Conforme dados da Yale School of Management, cerca de 600 multinacionais anunciaram que estão reduzindo ou encerrando suas operações na Rússia. Mas ainda existem mais de 200 empresas ocidentais que continuam operando na Rússia e não têm planos para parar suas atividades.

Algumas dessas empresas fizeram doações para organizações internacionais de ajuda humanitária ou anunciaram reavaliações, mesmo sem fornecer detalhes, das operações na Rússia.

Nos primeiros dias da invasão da Ucrânia, as notícias ressaltaram a despedida da Rússia de gigantes, como o McDonald’s, e na interrupção das operações das bandeiras de cartões de crédito Visa e Mastercard.

Atualmente, dos 850 restaurantes localizados no país, mais de 100 são franquias, e continuam funcionando sem problemas, já que a McDonald’s só fechou os restaurantes próprios. Situação semelhante diz respeito a outras duas cadeias de restaurantes: Burger King e Papa John’s.

Para os russos, o endurecimento das sanções não é muito sentido, apesar da inflação de cerca de 20% desde o início do conflito. E o que realmente mudou diz respeito ao setor de viagens, agora quase impossíveis, por causa do bloqueio de rotas aéreas. Mas esse não é um grande problema para o russo médio, que mesmo antes do começo da guerra não viajavam com frequência.

Carlo Cauti, professor do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (IBMEC), afirma que as sanções não funcionaram como se esperava, isso porque um número limitado de países aplicaram-na. “A Rússia ainda negocia com outros players importantes”, constatou. “As sanções não impediram a Rússia de comercializar seus produtos e importar bens de outros países.”

Segundo o especialista, as sanções da UE deixaram de fora o gás russo, importado por cerca de 40% dos países europeus, expondo ainda mais a fragilidade do bloco nesse campo. Cauti observa que as sanções podem perder força ainda neste ano, em virtude da crise energética que deve assolar a Europa.

Próximos passos

O cientista político Gunther Rudzit afirma que a invasão da Ucrânia não tem prazo para acabar. “É um conflito estagnado que não deve mudar de realidade daqui para a frente, fazendo com que a população ucraniana sofra muito”, disse. “Temos de ter em mente que o conflito pode durar anos. Haverá uma grande indefinição sobre o objetivo que Putin quer atingir.”

“Saída negociada, hoje, é algo muito improvável, a não ser que Kiev aceite grandes perdas territoriais”, avaliou Antonio Gelis Filho, doutor em administração de empresas e professor de geopolítica empresarial na Fundação Getulio Vargas. “A vitória militar ucraniana, ao menos até aqui, é algo muito difícil de ser visualizado. O fim se dará, provavelmente, por uma de duas razões: colapso econômico ou político da Rússia, algo que dependeria da improvável possibilidade da China aceitar um governo pró-Ocidente em Moscou, ou fragmentação da Ucrânia após o esgotamento da ajuda militar e econômica ocidental.”





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