Entrevistei Jô Soares em dois momentos. O primeiro foi no auge de seu Programa do Jô, depois de uma gravação em sua ampla sala na Globo. O segundo foi às vésperas do seu aniversário de 80 anos, uma entrevista muito mais intimista e reveladora, em seu apartamento em Higienópolis em São Paulo. Falou de humor, política, televisão, planos e o filho Rafael.

Jô era uma joia rara — um artista completo: fez história no humor brasileiro com cerca de 300 personagens e, com inteligência, conseguiu se reinventar na carreira ao trocar de função: virar um entrevistador em que o show era dele e as histórias — de famosos a anônimos — faziam parte do programa. Ficou 28 anos no ar com dois talk-shows no SBT e Globo e realizou 15 mil entrevistas.

Não preciso mais falar dele, porque Jô era um figura tão presente na vida de gerações que cada um vai se lembrar de um personagem, bordão, entrevista, história do Gordo. Até porque muitos realmente não iam para cama sem ele. Por isso, vou deixar o que ele me contou na última entrevista que me concedeu à época para revista Veja, no fim de 2017:

Dos personagens cômicos que o senhor fazia, algum seria rejeitado hoje?

Praticamente todos. A patrulha está um inferno. Qualquer um deles poderia ser patrulhado, porque a patrulha não vê nada. A patrulha é burra, sempre. Mas talvez os mais problemáticos fossem o Pai da Bicha e o Capitão Gay. Se bem que eu sempre fui contra qualquer forma de preconceito. Sou um anarquista.

É mais difícil fazer humor hoje, então?

Tenho 58 anos de profissão, com carteira assinada, e nunca vi uma coisa tão raivosa e medíocre de certas pessoas. Você viu o ódio que as pessoas colocam nos comentários sobre o João Gilberto? E com a Fernanda Montenegro? Mas há de se fazer humor mesmo assim. A grande arma do humor é a anarquia. Falo para os humoristas: façam, mesmo sob risco de serem apedrejados.

O Livro de Jô foi feito a partir de 104 encontros com o jornalista Matinas Suzuki Jr. O que mais o emocionou nessas conversas sobre sua vida?

Falar do Rafa (Rafael Soares, filho de Jô, morto em 2014). Diziam que eu escondia meu filho. Mentira! As pessoas não entendem que falar de um filho autista é difícil. Eu saía muito com o Rafinha. Ele amava música, era um pianista extraordinário. Ele olhava para você e dizia: “Sua música é tal”, de acordo com seu estado. É uma coisa sobrenatural, meio mágica.

O Brasil ficou mais conservador ou os conservadores, a partir das redes sociais, mostraram suas caras?

As duas coisas. O brasileiro é conservador. Sempre foi, mas disfarçava. “Êêê, tem Carnaval, oba”. Oba? Que oba? Como assim? Você vê que a grande música do Ary Barroso começa dizendo que o brasileiro é um “mulato inzoneiro”. As pessoas pensam que é um elogio. Inzoneiro, quer dizer, vagabundo, preguiçoso. Hoje, talvez ele seria preso por botar mulato numa música.

O Brasil ainda tem graça?

Tem. O humor, para mim, é uma visão de mundo. Perguntei tempos atrás ao cardeal de São Paulo, dom Odilo Scherer: “Padre, pode doar sangue?”. “Claro”, ele respondeu. “E esperma?”. Ele caiu na gargalhada. Tem pessoas que devem ter ficado chocadíssimas de eu fazer uma pergunta dessa para um cardeal. Mas temos de fazer. Gente, é humor. Não há limite. O Brasil não perdeu a graça. Eu só tenho medo que se perca a esperança.

Um beijo, Jô.





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