(Artigo de J. R. Guzzo publicado no jornal Gazeta do Povo em 29 de agosto de 2022)

O primeiro debate entre os candidatos à presidência na Band teve pelo uma grande utilidade — além, é claro, de ser um verdadeiro programa de jornalismo, em vez do interrogatório enfurecido feito contra um dos candidatos, o presidente da República, e o bondoso comercial de margarina feito a favor do outro, o ex-presidente Lula, na “sabatina” da Rede Globo. O assunto corrupção, essencial nesta campanha, e mantido como um segredo de Estado pela Globo, surgiu, enfim, aos olhos do público no debate. Na “sabatina”, o apresentador agiu como um assessor de imprensa ou o advogado criminal de Lula; em vez de perguntar sobre aquele que foi o maior surto de corrupção da história do Brasil, fez um manifesto a nação dizendo que “o senhor não deve nada à justiça”. Até Lula parece ter ficado surpreso. Mas no programa da Band não houve esta parceria. Lula, enfim, foi colocado diante da necessidade de falar sobre a incomparável roubalheira do seu governo — e deu-se muito mal, o que prenuncia problemas complicados para o resto da campanha que ele tem pela frente.

Sem a indulgência plenária que ganhou na “sabatina”, Lula teve de responder sobre a desesperada, maciça e indiscutível corrupção na Petrobras — ou nas delações premiadas, nas provas materiais da ladroagem, no dinheiro roubado que foi devolvido e por aí afora. Não explicou nada, é claro, pois é impossível explicar. Como faz automaticamente, em todas as ocasiões em que não pode dizer nada em seu favor, fugiu do assunto. Perguntavam de corrupção, e ele respondia dizendo que abriu “dezessete universidades”. Falavam na delação do seu ministro Antônio Palloci, e ele diz que “acabou com a fome” no Brasil etc. etc. À uma certa altura, disse que foi “absolvido até pela ONU”, como se isso valesse alguma coisa. É claro que garantiu, também, que foi “absolvido por todos os tribunais” deste país. Trata-se de uma dessas mentiras com teor de 100% de pureza — Lula não foi absolvido de absolutamente nada. Foi apenas “descondensado” na decisão mais desvairada da história da justiça brasileira, por um ministro que foi advogado do MST, militou na campanha presidencial de Dilma Rousseff e ganhou dela o seu cargo no STF.

Lula quer passar essa campanha sem falar de corrupção; fora umas moles e vagas tentativas de mencionar uma hipótese de propina levantada na CPI da Covid, e que não rendeu até hoje um único e miserável inquérito policial (nem Alexandre de Moraes se interessou pelo caso), o candidato do PT fala de outras coisas. Diz que o agronegócio é “fascista”, por exemplo, que a classe média “gasta demais” e que vai trazer de volta o imposto sindical — mas de ladroagem, mesmo, nem um pio. Alguém já viu num candidato da oposição passar uma campanha inteira sem dizer o tempo todo que o candidato do governo é ladrão? Só mesmo no Brasil de hoje. Aqui a roubalheira não é problema da situação; quem quer enterrar o assunto é justamente o candidato que deveria estar deitando e rolando nas denúncias de corrupção. O problema, pelo que mostrou o debate na Band, é que ele pode ficar em silêncio — mas os outros vão falar.





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