Em março de 2020, o Distrito Federal foi a primeira unidade da Federação a estabelecer medidas de distanciamento social para conter o avanço da covid-19. Por meio de um decreto, o governador Ibaneis Rocha (MDB) suspendeu as aulas da rede pública e privada por cinco dias. Na semana seguinte, todas as atividades de atendimento ao público foram paralisadas. Restaurantes, bares, lojas, salões de beleza e cinema tiveram de fechar as portas. Esse foi o pontapé inicial da prática de confinamento da população brasileira.

Os efeitos das medidas restritivas foram praticamente imediatos. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IGBE), em pesquisa publicada em 16 de julho daquele ano, mais de 700 mil empresas faliram. Do total de negócios fechados temporária ou definitivamente, quatro em cada dez — um total de 522 mil empresas — disseram ao IBGE que a falência ocorreu em razão da pandemia de coronavírus.

O comerciante Tiago Bruscagini Leme, dono de uma loja de conveniência em São João da Boa Vista (SP), é um dos brasileiros que sofreram com as políticas de trancamento. Em 3 de março de 2021, enquanto retornava de uma entrega, Leme foi abordado por policiais no portão de casa. O comerciante foi jogado ao chão e imobilizado. Ao protestar contra a situação, a mulher do comerciante, Jamilda, levou um tapa na cara.

Vinícius Petraco também foi vítima de violência estatal. Na noite de 26 de março, recebeu voz de prisão no momento em que lanchava com a namorada na Praça Central de Patrocínio (MG). Pelo menos três agentes municipais trabalharam para imobilizá-lo. O comerciante levou vários socos no rosto.

Em Olinda (PE), bairro localizado em São Benedito, vendedores ambulantes empurravam carrinhos de frutas quando foram abordados e agredidos por homens da Guarda Civil Metropolitana. Os agentes perseguiram os trabalhadores e confiscaram suas mercadorias. “Vai levar a minha carroça?”, protestou um dos vendedores. “Tô trabalhando.” Nada adiantou.

Essas e outras agressões foram denunciadas em reportagem publicada na Edição 54 da Revista Oeste. O assinante pode ler o texto ao clicar neste link.

O economista Luís Artur Nogueira põe em números o fracasso das medidas restritivas. “No período de março a junho de 2020, quando prefeitos e governadores adotaram severas restrições ao funcionamento de empresas, o saldo entre vagas formais abertas e fechadas foi negativo em 1,6 milhão”, escreveu. “No período seguinte, de julho a dezembro, quando houve um processo de reabertura da economia, o saldo de vagas formais foi positivo em 1,4 milhão.” Na prática, houve um déficit de 200 mil empregos.

Efeitos psicológicos

A falência de milhares de empresas e a consequente destruição de milhões de empregos, somadas às medidas de isolamento social, fizeram saltar o número de brasileiros com depressão. É o que mostra um estudo realizado pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

O levantamento, coordenado pelo professor Alberto Filgueiras, do Instituto de Psicologia da Uerj, em parceria com Matthew Stults-Kolehmainen, fisiologista do Exercício Clínico no Hospital New Haven, da Universidade de Yale, nos Estados Unidos, mostra que a prevalência de pessoas com estresse agudo subiu de 6,9% para 9,7% — aumento de 40%, em comparação com o período pré-pandemia. Os casos de depressão evoluíram de 4,2% para 8%. Já os casos de crise aguda de ansiedade foram de 8,7% para 14,9% — alta de 71%. Cerca de 1,5 mil pessoas, espalhadas por 23 Estados, participaram do estudo.

Quarentena gourmet

Com eficácia não comprovada do ponto de vista da saúde, mas prejuízos verificáveis na realidade sob o prisma econômico e social, o lobby pró-lockdown, promovido por governadores e impulsionado por parte da grande mídia, condenou milhares de brasileiros à pobreza.

Como bem observado por Paula Leal, em reportagem publicada na Edição 52 da Revista Oeste, na bolha imaginária de uma minoria da população, o mundo ficou restrito ao home office, à comida por delivery e às compras on-line. “Excluindo os funcionários públicos, que torcem pelo isolamento eterno, e os que vivem de renda, há uma multidão de trabalhadores que simplesmente não podem viver a ‘pandemia caviar’. Eles precisam sair de casa e trabalhar todos os dias para ganhar a vida”, explicou, na publicação.

Fique em casa, enquanto os outros trabalham por você

Reportagem publicada em Oeste mostra que, para garantir a quarentena gourmet durante a crise de coronavírus, cerca de 15 milhões de brasileiros precisaram trabalhar — a despeito do iminente risco de contágio e da violência estatal. Já parou para pensar nisso? Na agropecuária, por exemplo, cerca de 1,6 milhão de postos de trabalho foram mantidos. A indústria, responsável por fornecer água potável às residências, produzir alimentos processados, itens de higiene pessoal e álcool em gel, tão recomendado para aqueles tempos, preservou 7,2 milhões de empregos. Os serviços de transporte, armazenagem e cuidados com a saúde humana contabilizaram 6,1 milhões de colaboradores.

Oeste compilou uma série de dados para estimar quantas pessoas na cidade de São Paulo foram obrigadas a se deslocar diariamente para garantir serviços como manutenção de wi-fi, abastecimento de água e energia, entrega de comida, atendimento a clientes em supermercados, farmácias e postos de gasolina. Nada menos que 4,3 milhões de indivíduos estiveram nessa situação. Não existe lockdown grátis, diria o economista norte-americano Milton Friedman. No caso do lockdown à brasileira, o custo foi muito alto.





Source link

Comente a matéria: